Napoleoniana II

Mais um livro mal traduzido sobre o Grande Homem. A vítima desta vez é o Napoleãode Thierry Lentz, coisinha de cento e poucas páginas da coleção francesa Que sais-je?, para estudantes primários. O algoz é uma tal Constancia Egrejas.

Já ao folhear o livro na livraria, deparei com a seguinte bobagem na última página: “a burguesia o sustentou tanto que suas guerras tiveram sucesso”. O original, que desconheço, decerto diz “contanto que suas guerras tivessem sucesso”, sendo fato notório que a burguesia abandonou o imperador da França quando este começou a perdê-las.

Egrejas também ignora que nomes de reis e príncipes (menos os contemporâneos, exceção feita a Balduíno da Bélgica) devem ser aportuguesados. As esposas de Napoleão foram imperatrizes, portanto são Josefina e Maria Luísa, não Joséphine e Marie-Louise (ou Maria Louisa, como esta arquiduquesa era chamada em sua Áustria natal). A enteada dele, Hortense, foi rainha da Holanda, portanto Hortência. Todos os irmãos dele foram reis e príncipes, de modo que Joseph é José, Lucien é Luciano, Pauline é Paulina, Jérôme é Jerônimo, etc. Essa tradutora desconhece ainda quem foi Puchkin (a tradução conserva “Pouchkine”, como o dramaturgo russo é chamado pelos franceses), que o rio Rhône é o Ródano, entre outras omissões graves. A palavra règne é constantemente traduzida como “reino”, não como “reinado”, originando frases sem sentido como “O reino imperial tornou-se uma epopéia” (pág. 158).

A maioria das pessoas que prestam serviço de tradução são mulheres, pois é um trabalho que pode ser feito de casa. Existem excelentes tradutoras no Brasil, mas não de História. Eu sei bem, pois prestei serviço para o The History Channel durante anos, e nunca vi uma tradutora que tivesse conhecimento profundo ou mesmo interesse particular nos assuntos históricos que vertia para o português. Mulher odeia História. Não o ignorava o grande Machado ao observar no Dom Casmurro: “Respondeu-me que as mulheres eram criaturas tão da moda e do dia que nunca haviam de entender uma ruína de trinta séculos”. Era de se esperar, no entanto, que uma editora universitária fosse mais cuidadosa com suas traduções que um canal de TV a cabo.

Querem a prova de que isso é verdade e não machismo? Comparem duas biografias do Grande Homem lançadas pela Jorge Zahar Editor, ambas em 2005.

A primeira, Napoleão – Uma Biografia Política, de Steven Englund, não só tem o já mencionado problema de tradução de nomes, como também mostra uma caricatura de Napoleão bebê roubando a coroa de Luís XVIII enquanto este dorme, e embaixo a inscrição “Roubando a coroa do papa” (decerto o original dizia papa, “papai”). Quem traduziu? Maria Luiza X. de A. Borges.

A segunda é o formidável Napoleão – Uma Biografia Literária, de Alexandre Dumas, que não apresenta problema algum de tradução e, ao contrário, é um primor de correção histórico-lingüística em português. Quem traduziu? André Telles.

I rest my case, Your Honor.

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